quinta-feira, 26 de junho de 2008

3 pontinhos?

Não sou nenhum expert na língua, procuro escrever corretamente, dou minhas gafes, claro, no entanto uma das coisas que mais observo é o uso da pontuação. A pontuação incorreta pode mudar todo o sentido de uma frase, de um texto.

O que mais me incomoda ultimamente na internet é o uso exagerado das reticências. Abaixo, material colhido na internet, sobre o uso correto das reticências.

(http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/681198),

"As reticências são sinais gráficos de grande poder de sugestão e ricas em matizes melódicos. São ótimas auxiliares da linguagem afetiva e poética. Seu uso, porém, depende do estado emotivo do escritor."

Vamos tratar, aqui, das reticências, isto é, dos três pontinhos no início, no meio, ou ao final de algum texto literário. Digo literário, porque nos textos didáticos, científicos, ou seja, nos ditos «textos sérios», as reticências não têm espaço. Muitos dos autores desses textos chegam a considerá-las uma total inutilidade em seus processos de composição, embora façam uso delas em suas citações.

Nos textos literários, não raro, elas passam despercebidas, quando não ignoradas pelos escritores.

“No entanto, as reticências são fundamentais, sobretudo naqueles casos – sempre lato sensu – de duplo sentido, nos muitos subentendidos das conversas vagas, nas promessas indefinidas, nas situações pouco claras, nas esperanças falsamente criadas, nas aberturas ao contraditório, nos convites a “algo mais”, enfim, em todas as circunstâncias nas quais a precisão e o cuidado com o verdadeiro não figuram entre as prioridades do autor do discurso ou de seu eventual interlocutor.” (ALMEIDA, Paulo Roberto; Mini-tratado das reticências; 2004; p 1)

O termo reticência vem do latim reticentìa [ae], com a acepção de silêncio obstinado; omissão do que se deveria dizer.

É preciso lembrar que há uma distinção no emprego desse vocábulo:

Reticência - Substantivo Feminino – é a supressão ou omissão voluntária de uma coisa que poderia ou deveria ter sido “dita”. Ex.: Um comentário pleno de reticência.

Atitude de quem hesita em dizer expressamente o seu pensamento, em dar um parecer, etc.: um indivíduo cheio de reticência, dissimulado.

Reticências - Substantivo Feminino Plural - na produção textual, três pontos, dispostos paralelamente à linha e ao lado de alguma palavra e usado para marcar uma pausa no enunciado; podendo indicar omissão de alguma coisa que não se quer revelar; emoção demasiada, insinuação etc. (verbetes retirados do Houaiss e aqui transcritos)

Portanto, à sequência de três pontos (sinal gráfico: ) no fim ou no meio de uma frase chama-se “reticências”.

No Texto Literário usamos as reticências com dois propósitos:

1) Com propósito suspensivo, ou seja, quando queremos assinalar uma interrupção de uma frase.

2) Com o propósito expressivo, de caráter subjetivo, indicando espanto, surpresa, admiração, entusiasmo, desprezo, ironia, cólera, sarcasmo.

1 - Com propósito suspensivo, usamos:

a) Na omissão de trechos de uma citação. Neste caso, devemos empregá-la sempre entre parênteses ou colchetes:

Se é para o bem de todos [...] diga ao povo que fico. (D. Pedro)

b) Quando queremos deixar o pensamento em suspenso para que o leitor o complete:

Para bom entendedor...

Você me enganou, seu...

Lá fora as pessoas circulam livres. Nós aqui... Por que não fugir!

c) Quando o interlocutor deixa que um segundo conclua seu pensamento, intencionalmente incompleto:

— Apesar disso, a Marocas...?

— É verdade, dominou-o. (Machado de Assis)

d) Quando, nos diálogos, queremos reproduzir o corte da frase de um personagem pela interferência da fala de outro.

— Mas a Escritura... – ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.

— Deixemos em paz a escritura! – interrompeu o carmelita.

Se a fala do personagem continua normalmente depois dessa interferência, costuma-se preceder o seguimento de reticências. Veja:

— O que me parece, aventurou o coronel, é que eles vieram ao cheiro dos cobres...

— Decerto.

—... e que a tal D. Helena (Deus lhe perdoe!) não estava tão inocente como dizia. (Machado de Assis)

e) Quando queremos indicar que, naquela posição, há uma pausa na fala da personagem, causada por hesitação, dúvida, timidez, suspense ou outra razão. Após a pausa, podemos retomar a fala da personagem:

E o prêmio vai para... a equipe azul.

— Saiba que fiz... fiz um drama.

— Uma vez no poder, podem facilmente alijar os políticos profissionais... e os coronéis de...de... quero dizer, os coronéis honorários. (Érico Veríssimo)

2 - Com o propósito expressivo, de caráter subjetivo, usamos:

Quando queremos assinalar na elocução, certas inflexões de natureza emocional, tais como: alegria, tristeza, espanto, cólera, sarcasmo, desprezo, ironia, entusiasmo, admiração, impaciência, ou seja, as mais variadas nuanças emotivas; sempre no fim de um período de sentido pleno. As reticências, neste caso, por vezes, emprestam às frases uma sugestão de continuidade, ou de estagnação:

— Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu... (Machado de Assis)

Ódio por ele? Não... não vale a pena... (Florbela Espanca)

Mas que vejo eu ali... Que quadro de amarguras!

Lá fora... Bem, lá fora as pessoas circulam livres... (Castro Alves)

Devemos usar inicial maiúscula depois das reticências?

Quem usa o Office da Microsoft, já deve ter percebido que o corretor ortográfico sublinha de verde ou de vermelho, qualquer palavra com a inicial minúscula, colocada após as reticências. Nesse caso, o corretor ortográfico “enxerga” as reticências como uma pontuação finalizando a frase; mesmo que as reticências indiquem apenas uma pequena pausa na frase.

O uso da inicial maiúscula após as reticências só acontece se a idéia expressa antes deste sinal de pontuação estiver gramaticalmente concluída. Se tiver dúvida, use este artifício: se for possível substituir as reticências por um ponto final, devemos iniciar com maiúscula a palavra seguinte: Mas que vejo eu ali. (...) Que quadro de amarguras!

Casos especiais:

a) Podemos usar as reticências, antes de uma palavra ou de uma expressão que queremos realçar:

E teve um fim que nunca se soube... Pobrezinho... Andaria nos doze anos. Filho único. (S. Lopes Neto)

E as pedras... essas... pisa-as toda a gente! (Florbela Espanca)

b) As reticências combinam-se muito expressivamente com o ponto de exclamação e de interrogação; sugerindo um prolongamento das entonações interrogativas e exclamativas.

— Isso são sonhos, Mariana! ... (Camilo Castelo Branco)

— Contando que?... Interrompi eu, imitando-lhe a voz. (M. Assis)

— É canto funeral!... Que tétricas figuras!... (C. Alves)

Vejo coisas por ai, como o texto abaixo

Se algum ateu chega para você e diz que Deus não existe!...e não acredita em nada....sómente no mundo material!....óbviamente que você irá pensar... isto é uma questão de evolução espiritual... e esse cara não tem nada disto!... mas um dia ele vai perceber esse equívoco....tudo é uma questão de evolução espiritual... e a hora dele vai chegar.....mas você obviamente não quiz utilizar você própria como referencial.... você quis se referir, que ele um dia, talvez nessa vida (porque você acredita em reencarnação) ou em uma próxima... irá mudar seu ponto de vista.... e passará a interessar pela literatura espiritualista....

Dessa mesma forma, eu quis me expressar.... porque ficar amarrado a década de 60 do século XIX é atraso espiritual... porque hoje em dia existe milhares de novas informações que foram passadas do mundo espiritual ... mas que certas pessoas ainda dúvidam... e alega que é fantasioso, alegorias, etc ... e não aceitam as obras de André Luiz.... quanto a isto... continuo a afirmar ... é atraso espiritual... pois um dia... irão mudar esse ponto de vista... mas nunca quis dessa forma ... tomar-me como padrão... pois me considero muito atrasado espiritualmente, ainda!... e não tenho nem 1% da Evolução do Chico Xavier... este sim, que seria o meu referencial de um ser evoluido, de caridade e exemplo de vida!... o que para muitos ... tomá-o como um mistificador da Doutrina Espirita... coisas que não concordo, em absoluto!!!!

A idéia não é corrigir o texto, existem muitos erros, mas, sim observar o uso das reticências.

O que mais me admira é que geralmente são pessoas que “dizem” que leram muito. Sabemos que em sua grande maioria, escreve corretamente quem muito lê. É através da leitura que observamos as devidas colocações de palavras, seus significados e o emprego da pontuação.

Um texto como o postado fica completamente sem sentido.

Eu particularmente procuro tomar cuidado, embora use um pouco por que através de minhas crônicas e outros textos, como contos e minhas histórias, quero dar justamente um sentido dúbio ou mesmo incitar a imaginação de quem está lendo.

Fica aqui o alerta para quem passa por aqui, de observar o emprego das reticências.

Tenho visto isso com muito freqüência no orkut e é usado até por pessoas que se dizem “letradas”.

Nossa língua tem sofrido muitas mudanças, mas, se isso pega, junto com a linguagem que tem sido usada na internet ultimamente...

Para concluir, vou deixar um exemplo da ignorância das pessoas quanto ao emprego dos tais “3 pontinhos”.

Programava um site, há tempos atrás e passei a colocar no ar os textos de uma colunista social. Um belo dia esta chega a mim com um texto todo incompleto e ao passarmos o texto juntas me disse: aqui você coloca aqueles 3 pontinhos, como você costuma usar nas suas crônicas.

Estou pasma até hoje.

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns,você tem toda razão. O uso impróprio das reticências me irrita. Por conta disso, eu escrevi no google "uso exagerado das reticências" e caí no seu blog.
É realmente ridícula a maneira como os internautas usam os três pontinhos!